[Micla] Palavras do Superior Geral na V Assembleia Ordinária de Micla

Queridos irmãos,

 

Nossa Congregação nasceu como comunidade porque nosso fundador estava convencido de que é melhor evangelizar “com os outros” que fazê-lo sozinho. A Congregação tem crescido muito em 175 anos, pois nossos irmãos evangelizaram unidos. Nesse caminho também temos descoberto o valor do trabalho em rede, realizado continentalmente, e as diferentes conferências estão empreendendo iniciativas muito interessantes. Vocês, como Conferência, têm impulsionado vários âmbitos de cooperação. Sempre os apresentamos como exemplo para outras conferências que estavam colocando em marcha âmbitos de contribuição adaptados a seu contexto.

 

  1. A presença Claretiana na América

 

Para nosso fundador, América é a “vinha jovem”, e seu desejo de iniciar uma missão no continente se fez realidade antes que Deus o chamasse para si. A Providência acompanhou nossa expansão, consolidação e reorganização no continente americano. Neste momento, vivemos um momento histórico desafiante e privilegiado, e os convido a assumir a responsabilidade que temos agora de manter vivo o carisma Claretiano da Congregação e de estar “disponíveis a serviço da Igreja” (cf. CC 86, 113.1, 153) neste continente.

 

Em sintonia com o último capítulo geral, podemos perguntar-nos: Qual é o sonho de Deus para a presença Claretiana na Igreja e na sociedade na América? Como colaboramos com o Espírito para fazer realidade esse sonho?

 

  1. O projeto de Micla

 

O projeto de Micla, redigido pela equipe executiva com a colaboração dos Organismos que fazem parte da Conferência, e os informes das distintas áreas de colaboração apresentam a realidade e as possibilidades que temos no continente quando unimos nossos recursos e apoiamo-nos mutuamente para servir a Igreja nas diferentes áreas de missão. Uma conferência não é um órgão de autoridade que se situa entre os Organismos Maiores e o Governo Geral. No entanto, pode impulsionar com força para que os Organismos Maiores caminhem juntos e unam esforços para fazer uma contribuição conjunta como Claretianos na América. Vocês já estão experimentando em muitas áreas os frutos desse tipo de colaboração.

 

A eficácia de uma conferência depende da generosidade com que os Organismos Maiores participam ativamente nela, destinam pessoal e energia para colocar em marcha seus programas e integram os projetos comuns em seus próprios planos de ação. Quando isso não acontece, esses projetos comuns ficam em ideias e boas intenções.

 

Quero compartilhar com vocês algumas reflexões com o desejo de ajudar a Conferência a alcançar seus objetivos.

 

  • A interconexão da vida e dos ministérios

 

Vivemos em uma época em que se tem mais consciência da interconexão de tudo o que há no mundo e da necessidade de entrelaçar as diversidades pelo bem comum. As grandes conquistas se conseguem graças à qualidade da colaboração das diferentes disciplinas e à competência das pessoas implicadas. A ecologia da Congregação depende da qualidade da coerência entre nossa vida e missão, da comunhão e colaboração entre nós, e da coordenação das diversas dimensões de nossa missão. Todos os aspectos da nossa vida e missão estão interconectados. Por exemplo, a pastoral vocacional necessita que alguns de nossos irmãos se comprometam intensamente com ela, mas isso não é suficiente. Necessita do ethos missionário da Congregação, do apoio da pastoral educativa, da pastoral paroquial, da animação bíblica, das comunicações, do compromisso em Somi, etc. Quando algumas áreas são débeis, as outras também se debilitam. Por isso, é necessário ter uma visão de conjunto do tecido da vida e missão da Congregação, para situar nele cada uma de suas partes. A saúde da Congregação depende da saúde de suas partes, mas, em primeiro lugar, da consistência vocacional dos que a formam.

 

  • Visão compartilhada e cultura do discernimento

 

Outro elemento importante é a visão coletiva (compartilhada) sobre a presença Claretiana no Continente e em cada um dos Organismos Maiores. Essa visão nasce do Evangelho, da visão de Deus para a humanidade e da experiência do nosso fundador, experiência que vamos fazendo nossa em cada época nos fóruns congregacionais de discernimento que são os Capítulos. Essa visão não é expressão do que gostam ou desgostam os superiores da vez, ou das ideologias mais em voga no momento concreto. Por isso, é tão necessário prestar a devida atenção aos processos de discernimento da vontade de Deus em todos os momentos da vida e missão da Congregação. A pergunta chave do discernimento há de ocupar um papel central em todos os nossos encontros: O que o Senhor está nos pedindo? Essa pergunta facilitará que seja sempre Cristo quem esteja no timão de nossos assuntos.

 

  • Medidas e estratégias concretas

 

Às vezes, temos a tentação de nos contentarmos com processos intermináveis de discernimento, organizando comissões, reuniões e muitas conversas, mas sem terminar de colocar em marcha ações concretas. A vida se desenvolve no concreto e exige decisões e ações. Em nossos processos de discernimento há um momento de preparação das decisões (decision making) e um momento distinto de tomada de decisões (decision taking). A tomada de decisões é prerrogativa da autoridade a que se encomenda essa tarefa. Pode corresponder a uma equipe dirigente (a um governo) ou a autoridades eclesiásticas, conforme a questão que é tratada.

No continente americano, nos são oferecidas muitas oportunidades graças à nossa difusão e à rica história de cada Organismo Maior. A Conferência Micla é o fórum no qual se discerne e decide o que vamos fazer juntos em cada momento, em sintonia com a visão e missão da Congregação. Os documentos dos capítulos gerais e provinciais proporcionam o marco à nossa colaboração.

Junto com essas oportunidades, experimentamos limitações de pessoal e de recursos que temos de abordar com realismo, quando planejamos nossas estratégias. Como aproveitar o que dispomos e permitir que Deus faça o milagre de multiplicá-lo quando colaboramos entre nós e com outros agentes da evangelização.

 

  • Acompanhamento e avaliação

 

Na Congregação, a cultura de discernimento exige que prestemos atenção ao que sucede em nós e ao nosso redor, e que tenhamos a coragem de desenvolver plenamente as decisões tomadas, sendo ajudados pelas avaliações e adaptações periódicas. Passados três anos do Capítulo Geral, estamos planejando avaliar como está indo a execução dos desenhos e compromissos que discernimos, como expressão do Sonho da Congregação. Um exemplo em Micla pode ser o Instituto da Vida Consagrada. Hoje, somos mais conscientes das possibilidades e desafios que o projeto tem pela frente. Como avaliamos o caminho percorrido até agora? Como temos que seguir atuando para fazer esse sonho realidade? O mesmo poderia ser dito de cada uma das áreas de colaboração no âmbito de Micla.

 

  1. Plataformas evangelizadoras e conteúdo transversais do anúncio

 

Nossa Congregação ficou encharcada do impulso renovador do Concílio Vaticano II, que nos ajudou a abrir empresas missionárias em novos contextos geográficos e ministeriais. Às vezes, apelamos à expressão das Constituições, “o sentido de intuição para captar o mais urgente, oportuno e eficaz” (CC 48), para explicar a grande variedade de ministérios que realizamos na Igreja. Os dez capítulos gerais que celebramos após o Concílio aprofundaram a compreensão de nosso carisma e missão na Igreja. Assim, temos identificado os elementos transversais importantes que devem estar presentes nas plataformas ministeriais da missão Claretiana. Eles são:

 

– A proclamação da Palavra de Deus

– A aplicação dos valores de Solidariedade e Missão (Somi)

– O fomento das vocações (de todas as vocações).

 

As plataformas principais de evangelização na Congregação são:

 

– Plataformas pastorais (as paróquias, a pregação e exercícios)

– Os centros educativos

– Centros Sociais

– As redes de comunicação (o mundo digital e as publicações).

 

O estilo Claretiano inclui:

 

– Missão compartilhada (multiplicar os evangelizadores)

– Sinodal, apreciativo e narrativo

– Discernimento e acompanhamento.

 

Quanto melhor saibamos quem somos na Igreja e por que fazemos o que fazemos, mais eficazes serão nossos ministérios.

 

  1. Âmbitos de colaboração em nível de Conferências

 

Agora, gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre as seguintes áreas nas quais Micla faria bem em promover a colaboração e a coordenação para melhorar nossa contribuição à América como Claretianos.

 

  • A pastoral juvenil e a acolhida de vocações Claretianas

 

A primeira prioridade e o maior desafio que considero que a Congregação tem que atender neste momento está no âmbito do cuidado das vocações. Se não contamos com Claretianos comprometidos e apaixonados por Cristo e seu Evangelho, nossos planos e projetos serão como castelo no ar. Viver com alegria nossa vocação missionária é fundamental para criar uma cultura vocacional na Congregação. O ambiente sociocultural em que vivemos não apoia nossa forma de vida. Necessitamos, portanto, criar condições para alimentar nossa vocação missionária e crescer nela. No centro da pastoral vocacional está o amor à nossa própria vocação, amor que vai criando cultura vocacional nos Organismos Maiores. Do mesmo modo, aos jovens, hoje, custa escutar o chamado de Deus em seu interior e responder a ele. Não há razões para pensar que o Senhor há deixado de chamar novos discípulos nesses tempos. Nossa proximidade dos jovens e nossa genuína preocupação por eles são indispensáveis para ajudá-los a se questionarem vocacionalmente e a responderem ao chamado do Senhor em suas vidas. Alguns Organismos Maiores têm intensificado, recentemente, sua proximidade aos jovens e sua dedicação a acompanhá-los, tendo já colhido alguns bons frutos. Se uma Província está desorientada por conflitos internos ou por uma excessiva preocupação pela economia, ou vive encurralada pela mundanidade ou outros vírus espirituais, o ambiente que se cria nela dificulta que os jovens reconheçam uma possível vocação Claretiana e respondam a ela. Necessitamos promover as iniciativas da Família Claretiana e de Micla para acolher novos membros e acompanhá-los.

 

  • O ministério bíblico e a animação bíblica de todas as plataformas pastorais

 

Nosso carisma está intrinsecamente relacionado com o ministério da Palavra de Deus. A Congregação tem avançado muito nesse aspecto, desde o Capítulo de 1985. A prefeitura de Bíblia e comunicações vem promovendo essa dimensão de nosso carisma junto a Organismos Maiores e Conferências. Ao descrever o Sonho da Congregação, o último Capítulo sublinhou a dimensão bíblica. Micla (antes Cicla) tem estado na vanguarda da pastoral bíblica, ainda que nem todos os Organismos tenham conseguido no mesmo ritmo. Temos que perguntar como Micla pode ajudar os Organismos a melhorarem seu serviço da Palavra de Deus.

 

  • A multiplicação dos evangelizadores

 

Levamos muitos anos falando de missão compartilhada. O convite do Papa Franciso para que toda a Igreja caminhe sinodalmente nos oferece uma grande oportunidade para nos aprofundarmos ainda mais nessa dimensão e para implantar horizontes novos no nosso estilo de missão. Necessitamos mudar a mentalidade: deixar a autorreferencialidade para nos centrarmos em Cristo e nos percebermos como colaboradores do Espírito junto a outros que também foram escolhidos por Deus para compartilhar sua missão. Nosso fundador teve essa intuição quando optou por “fazer com outros” a missão de Deus no lugar de seguir sozinho. A colaboração na missão há de ter consequências ao menos em três níveis.

 

  1. O trabalho em equipe entre missionários Claretianos

 

Vários Capítulos nomearam individualismo o que acontece entre nós e que debilita nossa vida e missão. Tenho a impressão de que o termo “individualismo” se converteu numa espécie de estribilho chato que se repete sem lhe atribuir um claro conteúdo. É hora de desvendarmos o conceito para abordar a questão com claridade. É importante distinguir “individualidade” e “individualismo”.

A individualidade fala da riqueza concedida por Deus a cada pessoa e que enriquece o grupo ao qual pertence. O individualismo aparece quando esses dons são utilizados sem referência ao bem comum. Convém também tomar consciência do componente de autopromoção que implica o individualismo. Entendemos melhor o individualismo quando o contemplamos no marco do desenvolvimento de uma pessoa, em uma espécie de escala na qual a maturidade de indivíduos e grupos está relacionada com o acesso a níveis superiores, que deixam a autorreferência em um nível inferior, e o transcende para dar lugar também às perspectivas e preocupações dos demais. Nesse sentido, o individualismo é como um grito da alma ou uma dor de parto espiritual que convida a dar o salto a uma vida mais significativa e a uma maior liberdade interior. Como acompanhar esse processo e promover entre nós o discernimento coletivo e o trabalho em equipe?

 

  1. A missão compartilhada: leigos e mulheres

 

Os informes de Micla têm colocado em relevo como temos avançado na hora de compartilhar a missão com os leigos e as mulheres. Minha sensação é de que, nesse campo, Micla está na vanguarda da Congregação. Ao mesmo tempo que apreciamos os progressos realizados, necessitamos consolidá-los e seguir crescendo em harmonia com nossos dons carismáticos. Difundir a fé em missão compartilhada requer estabelecer limites adequados que assegurem a sã autonomia dos colaboradores.

Um campo relevante no qual podemos ser chamados a promover melhorias é o da formação dos leigos e das mulheres para que assumam o papel que lhes corresponde na Igreja.

 

  1. O Instituto de Vida Consagrada

 

Vivemos tempos de inverno da vida consagrada no Ocidente, onde floresceu durante grandes períodos no passado. Nosso fundador promoveu a vida consagrada porque estava convencido de seu lugar na missão da Igreja. De nossos seis institutos, o ITVCA é o mais débil por muitas limitações que encontra agora para conseguir tanto uma estrutura estável como um pessoal dedicado. Quando nos perguntamos em discernimento se o Instituto era algo necessário na América, a resposta foi positiva. Mas se não abordamos os obstáculos que estamos encontrando na hora de impulsioná-lo, o Instituto seguirá tendo as dificuldades que têm caracterizado seus primeiros anos.

Em relação ao Instituto e com os centros superiores de educação, não devemos esquecer a necessidade de que haja missionários Claretianos que se especializem numa série de disciplinas. Ao repassar quem tem sido enviado a Roma, para os estudos de especialização nos últimos vinte anos, logo se vê que a presença da América é muito escassa. Convido os Superiores Maiores a tomarem a sério essa questão.

 

  • O ministério da educação

 

No cenário secular emergente, a educação é uma plataforma que permite que os valores do Evangelho sejam arraigados nos jovens. Alegra-me ver a importância que vocês dão ao Pacto Educativo Global promovido pelo Papa Francisco. A educação é um âmbito no qual se podem promover os valores transversais do carisma Claretiano, com vistas a contribuir para uma sociedade fraterna e justa e para uma casa comum mais saudável para todos. Como podemos melhorar nossa colaboração em Micla na pastoral educativa?

 

  • Somi

 

Levamos mais de dez anos falando de Solidariedade e Missão. Não se trata de um novo campo de evangelização, senão de uma forma de coordenar os ministérios mais ligados com o social e as estruturas que os apoiam. Necessitamos de um processo de pensamento holístico para conceber a colaboração entre JPIC, a Procuradoria de Missões e o apoio da equipe nas Nações Unidas. Estamos aprendendo a arte de entrelaçar essas entidades com um objetivo comum para potencializar o desenvolvimento integral das pessoas às quais servimos. A equipe geral de Solidariedade e Missão está preparando uma reflexão para clarificar a natureza de Somi. É importante que coordenemos os diferentes ministérios que têm a ver com o cuidado dos pobres e da casa comum. Asseguremo-nos de que nossa presença na América é solidária com os seres humanos mais desfavorecidos e com quem se preocupa com a casa de todos.

 

  • Comunicação e missionários digitais

 

Nosso fundador estava muito preocupado com a fome da Palavra de Deus que as pessoas tinham e fez um esforço para encontrar canais que permitissem chegar bem ao povo. Para se conectar com ele, usou criativamente os recursos de seu tempo. A revolução das mídias sociais e das tecnologias da comunicação criaram um continente virtual, no qual temos que estar presentes como evangelizadores. Dos 8 bilhões de habitantes da Terra em 2023, 68% (5,880 bilhões) usam celulares e 64% (5,160 bilhões) são usuários de Internet. Há 60% (4,760 bilhões) de usuários de redes sociais no mundo e 137 milhões de novos usuários.

A maioria dos Claretianos são também habitantes do mundo digital, muitos dos quais evangelizam criativamente nele. Os Claretianos na América têm toda uma história que se refere ao uso de meios de comunicação como rádio, televisão e outros canais. A ciberevangelização é hoje o meio que permite chegar com mais eficácia às periferias em que nenhum missionário pode entrar. Diferente de uma paróquia ou de uma escola, o ciberespaço é acessível a qualquer pessoa, com independência de sua fé, etnia, ideologia ou orientação. O que importa são a qualidade e a apresentação. Micla deveria fazer um esforço expresso para assegurar que haja uma presença evangelizadora Claretiana no continente digital. Como congregação, seguimos explorando de que forma aproveitar a oportunidade de estar presentes como evangelizadores nessa nova e enorme plataforma.

 

  1. Conclusão

 

Queridos irmãos, compartilhei com vocês algumas reflexões que brotam em mim, com a intenção de provocar sua reflexão e ação compartilhadas em Micla. A Congregação lhes agradece o entusiasmo e o compromisso missionário, que nos enriquecem a todos. Caminharemos juntos, compartilhando com alegria os dons de Deus e chegando a ser uma comunidade evangelizadora na Igreja e na sociedade, como nosso fundador sonhou para seus missionários.

 

Mathew Vattamattam

Superior Geral

 

10 de março de 2024

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